A mão invisível do mercado é realmente invisível (para a maioria das pessoas)

A construção e venda de um simples smartphone é um processo extremamente complexo, tão complexo que você provavelmente não faz a mínima ideia de quem ajudou a produzir esse pequeno aparelho que tem em mãos, muito menos sabe a origem das peças dele. De fato, até mesmo o mais simples telefone celular depende do esforço físico e mental de milhares de pessoas.

Alguém precisa criar o design do aparelho e outra pessoa, o sistema operacional que fará o aparelho ter alguma funcionalidade. Alguém precisa desenvolver o hardware do aparelho e outra pessoa, transformar os recursos naturais no hardware planejado. E não acaba por aí, mas deixo o resto do processo para sua imaginação.

Em suma, o processo é tão complexo que é praticamente impossível conhecer todas as pessoas envolvidas nele. Porém, esta é a mágica do capitalismo: milhares de serviços são prestados de tantas formas diferentes e indiretas e por tantas pessoas que desconhecemos que mal conseguimos perceber a magnitude do processo em si. Na verdade, a “mão invisível do mercado” de Adam Smith trata-se exatamente disso. Apesar do livre mercado estar em todos os lugares e influenciar completamente nossas vidas, mal percebemos ou compreendemos seu poder. Talvez por isso muitas pessoas caiam nos famigerados chavões socialistas de que o livre mercado é algo ruim, ou de que o livre mercado cria divisão, desigualdade etc. Errado! O livre mercado torna o nosso mundo tecnológico e desenvolvido possível. O livre mercado torna a ascensão social possível, gera riquezas inimagináveis. Desde 1820, a humanidade vem erradicando a pobreza graças ao… livre mercado![1]

Infelizmente, é essa abstratividade e subjetividade que, embora sintetizem a beleza do capitalismo, o torna tão complexo e igualmente incompreensível para aqueles que nunca tiveram nenhuma lição de economia.

Mas como diria a expressão francesa símbolo do liberalismo econômico… “laissez faire, laissez aller, laissez passer”: deixai fazer, deixai ir, deixai passar. Ou seja, deixe o povo decidir, deixe a mão invisível do mercado reinar — que é, em suma, a própria vontade do povo.

[1] Para erradicar a pobreza, mais capitalismo – https://www.mises.org.br/Article.aspx?id=2788

P.S.: para entender melhor como funciona o capitalismo (e o socialismo) assista a este vídeo: https://www.youtube.com/watch?v=bqPZfU0_Sz4 (Essas são as principais diferenças entre socialismo e capitalismo – Spotniks)

Guerras culturais

Guerras culturais
Diário do Comércio, 2 de janeiro de 2006

“O segredo é da natureza mesma do poder”, dizia René Guénon. Quem ignore essa regra hoje em dia está condenado a servir de instrumento cego e dócil para a realização de planos políticos de enorme envergadura que lhe permanecem totalmente invisíveis e inacessíveis. Isso é particularmente verdadeiro no caso das chamadas “guerras culturais”, cujos movimentos, sutis e de longuíssimo prazo, escapam à percepção não só das massas como da quase totalidade das elites políticas, econômicas e militares. Todos sofrem o seu impacto e são profundamente alterados no curso do processo, inclusive nas suas reações mais íntimas e pessoais, mas geralmente atribuem esse efeito à espontaneidade do processo histórico ou a uma fatalidade inerente à natureza das coisas, sem ter a menor ideia de que até mesmo essa reação foi calculada e produzida de antemão por planejadores estratégicos.

A ideia de ter sido usado inconscientemente por outro mais esperto é tão humilhante que cada um instintivamente a rejeita indignado, sem notar que a recusa de enxergar os fios que o movem o torna ainda mais facilmente manejável. O medo de ser ridicularizado como crédulo é um poderoso estimulante da ingenuidade política, e na guerra cultural a exploração desse medo se tornou um dos procedimentos retóricos mais disseminados, erguendo uma muralha de preconceitos e reflexos condicionados contra a percepção de realidades que de outro modo seriam óbvias e patentes.

Uma longa tradição de lendas urbanas em torno de “teorias da conspiração” também ajudou a sedimentar essa reação. A guerra cultural não é, evidentemente, uma “conspiração”, mas a sutileza das suas operações, raiando a invisibilidade, faz com que a impressão confusa suscitada pelo conceito em quem ouça falar dele pela primeira vez seja exatamente essa, produzindo quase infalivelmente aquele tipo de resposta que mereceria o nome de suspicácia ingênua, ou incredulidade caipira.

Outra dificuldade é que as armas usadas na guerra cultural são, por definição, uma propriedade quase monopolística da classe dos intelectuais e estudiosos, escapando não só à compreensão como aos interesses do cidadão comum, mesmo de elite, não envolvido em complexos estudos de história literária e cultural, filosofia, linguística, semiologia, arte retórica, psicologia e até mesmo sociologia da arte. Em todo o Congresso Nacional, na direção das grandes empresas e nos comandos militares não se encontrará meia dúzia de portadores dos conhecimentos requeridos para a compreensão do conceito, quanto mais para a percepção concreta das operações de guerra cultural. Sobretudo em países do terceiro mundo, a formação das elites governantes é maciçamente concentrada em estudos de economia, administração, direito, ciência política e diplomacia. Para esses indivíduos, as letras e artes são, na melhor das hipóteses, um adorno elegante, um complemento lúdico às atividades “peso pesado” da política, da vida militar e da economia. Suas incursões de fim de semana em teatros e concertos podem alimentar conversas interessantes, mas jamais lhe darão aquela visão abrangente do universo cultural sem a qual a ideia mesma de uma ação organizada e controlada sobre o conjunto da cultura de um país (ou mais ainda de vários) seria impensável. De fato, para essas pessoas, ela é impensável. A cultura lhes aparece como o florescimento autônomo e incontrolável de “tendências”, de impulsos criativos, de inspirações multitudinárias que expressam o “senso comum”, o fundo de opiniões e sentimentos compartilhados por todos, a visão espontânea e “natural” da realidade.

Que, para o estrategista da guerra cultural, o “senso comum” seja um produto social como qualquer outro, sujeito a ser moldado e alterado pela ação organizada de uma elite militante; que sentimentos e reações, que, para o cidadão comum, constituem a expressão personalíssima da sua liberdade interior, sejam para o planejador social apenas cópias mecânicas de moldes coletivos que ele mesmo fabricou; que a direção de conjunto das transformações culturais não seja a expressão dos desejos espontâneos da comunidade mas o efeito calculado de planos concebidos por uma elite intelectual desconhecida da maioria da população — tudo isso lhe parece ao mesmo tempo um insulto à sua liberdade de consciência e um atentado contra a ordem do mundo tal a concebe. Mas essa reação está em profundo descompasso com o tempo histórico.

A característica essencial da nossa época é justamente a transformação cultural planejada, e quem não seja capaz de percebê-la estará privado da possibilidade de lhe oferecer uma reação consciente: por mais dinheiro que tenha no bolso ou por mais alto cargo que ocupe na hierarquia política, jurídica ou militar, estará reduzido à condição de “massa de manobra” no sentido mais desprezível do termo. O sonho dos iluministas do século XVIII — uma sociedade inteira à mercê dos planos da elite “esclarecida” — tornou-se realizável dois séculos depois graças a três fatores: a expansão do ensino universitário, criando uma massa de intelectuais sem funções definidas na sociedade e prontos para ser arregimentados em tarefas militantes; o progresso dos meios de comunicação, que permite atingir populações inteiras a partir de uns poucos centros emissores; e a enorme concentração de riquezas nas mãos de alguns grupos oligárquicos
imbuídos de ambições messiânicas.

Artigo de Olavo de Carvalho; ênfase minha.

A república dos prazeres

De Jean-Jacques Rousseau aos modernistas falou-se (e fala-se) muito no retorno do homem civilizado (leia-se acorrentado) ao homem primitivo como uma forma de libertação. A verdadeira liberdade seria aquela em que os homens não teriam que se preocupar com as tradições e com a moral, libertando-se, assim, dos artificialismos da sociedade. Na sociedade ideal de Rousseau, o homem só teria de se preocupar com seus prazeres; seria, de fato, uma sociedade em que as pessoas não teriam nenhuma responsabilidade. Isso foi ainda mais acentuado com o marxismo e com o freudismo. Nesse caso, tudo que o homem precisa está ligado ao material. Tudo resume-se ao prazer carnal e ao bem-estar material. E isso certamente explica a decadência da Civilização Ocidental hoje.

F. A. Hayek, em sua obra Os Erros Fatais do Socialismo, sempre pontuou que as tradições morais são o motivo pelo qual esta civilização chegou até aqui. As tradições, assim, são a base pela qual se construiu e se constrói tudo. Mas Hayek também pontuou que as tradições morais se originaram do conformismo a certas regras de condutas que buscava estabilizar as relações entre os homens. Algumas dessas regras são, de fato, um fardo. Isso significa que nem todas as pessoas gostam de carregá-lo pois alguns instintos inatos devem ser reprimidos para manter a boa convivência em sociedade. Com efeito, esse fardo é mais que um simples fardo, ele é, como disse antes, a base; e a outra opção, aquela de Rousseau e do freudiano-marxismo, destruiria toda a civilização. Mas os progressistas parecem não entender muito bem isso, ou entendem e querem exatamente que a civilização colapse para que eles possam construir uma nova civilização, substituir o mundo antigo pelo mundo novo com o novo homem. Nesse mundo novo não há responsabilidades individuais; o Estado está no controle e “cuida” de todos. Todas as preocupações do novo homem são direcionadas aos prazeres (república dos prazeres); ninguém mais está acorrentado pelos “grilhões morais” da sociedade, ninguém mais é “oprimido” por suas responsabilidades individuais. Em verdade, não só esta segunda opção é mais provável como também é o intento real do globalismo como demonstrado, com muita documentação, nos livros Maquiavel Pedagogo e Música, inteligência e personalidade.

Contudo, a criação do mundo novo como forma de libertar o homem é bem menos romantizada na realidade. O homem, ao retornar ao seu estado primitivo, isto é, à deriva de suas emoções e desejos (animalizado), destrói sua consciência e facilita que seja manipulado – ou controlado pelo estado. 

[…] Com efeito, o objetivo aparante dessa civilização dos prazeres é o hedonismo, com vistas a que os escravos modernos apreciem a servidão física, intelectual e moral, e deixem de invejar os verdadeiros dirigentes da sociedade, de vigiar seu comportamento e sobretudo de querer conquistar o poder, impedi-los de roubar o Estado! (Dr. MINH DUNG NGHIEM. Música, inteligência e personalidade, pag. 121)

O mundo caminha para a selvageria. O globalismo visa animalizar o homem a fim de controlá-lo, manipulá-lo. O papel da educação foi alterado. Em todos os lugares do mundo tem-se notado uma queda na inteligência da pessoas, agora reina a incompreensão da realidade. Não é de se espantar que jovens das principais potências mundiais, países super desenvolvidos, adoram o socialismo mesmo que este tendo matado mais de 100 milhões de pessoas no século passado (isso em tempos de paz); estes jovens vivem nos países mais livres e prósperos que já existiram. Em suma, nos países mais capitalistas (leia-se livres) que existem, mas não conseguem perceber que são privilegiados e que a outra opção, o socialismo, ainda hoje é a causa do sofrimento de milhões de pessoas pelo mundo e que nem de perto consegue alcançar a prosperidade do livre mercado. Estes jovens são os mesmos que defendem a tolerância religiosa e atacam incessantemente o cristianismo, a religião que fundou a Civilização Ocidental e que semeou – e semeia – nos corações dos homens a caridade e o amor pelo próximo, criando, assim, parte da base pela qual a civilização se sustenta. Estes jovens são os mesmos que dizem lutar pelas minorias, principalmente pelos homossexuais, mas não exitam em proclamar seu amor pelo revolucionário Che Guevara e pelo socialismo. Ora, Che perseguiu e matou homossexuais em Cuba dizendo abertamente que os abominava. E quanto aos regimes socialistas, é difícil imaginar algo que tenha perseguido, escravizado e matado mais homossexuais e minorias.

Acho que já deu para perceber que algo não está certo. A consciência humana está sendo reprimida. As pessoas não compreendem a realidade e não conseguem raciocinar logicamente. Os jovens estão perdidos. Não houve registro na história de um período mais obscuro que esse em que estamos vivendo – os casos de depressão e suicídio só aumentam; e o uso de drogas, também. E diversos fatores contribuem para isso, principalmente a educação e o entretenimento mainstream (músicas e filmes, principalmente).

[…] A decadência moral de nossos dias, que se poderia atribuir a uma “indiferença moral” ou a um “suposto eclipse da moralidade”, está, na realidade, relacionada ao “tempo necessário ao perfeito controle da modificação dos valores”, à revolução psicológica. Ou, ainda, que a ruína dos valores morais é tão somente uma consequência, escolhida deliberadamente e conscientemente assumida, de um projeto de subversão dos valores que não se pode realizar em prazo muito breve. Desse modo, a escalada da criminalidade, da insegurança, da delinquência, do consumo de drogas, a desestruturação psicológica dos indivíduos que se seguiu ao aviltamento moral e à consequente destruição do tecido social são as consequências de uma política consciente. Portanto, a manobra destinada a modificar os valores articula-se assim: inicialmente, impedir a transmissão, especialmente por meio da família, dos valores tradicionais; face ao caos ético e social daí resultantes, torna-se imperativo o retorno a uma educação ética – controlada pelos Estados e pelas organizações internacionais, e não mais pela família. Pode-se, então, induzir e controlar a modificação dos valores. Esquema revolucionário clássico: tese, antítese e síntese, que explica a razão por que, chegada a hora, os revolucionários se fazem os defensores da ordem moral. E por que, nolens, volens, os partidários de uma ordem moral institucionalizada se encontram frequentemente lado a lado com os revolucionários. (PASCAL BERNADIN. Maquiavel Pedagogo, pag. 65-66)

Como mostra o livro Maquiavel Pedagogo do francês Pascal Bernadin, o papel da educação foi alterado. A prioridade já não é mais a formação intelectual, isto é, a emancipação do pensamento, a formação de pessoas que compreendam a realidade, mas antes a formação social não cognitiva. A nova educação tem como objetivo moldar as pessoas a fim de criar o homem novo, um ser animalizado, primitivo, perfeito para ser controlado pelo aparato estatal. E para além da educação, a música também tem um grande papel na criação do homem novo. Já se sabe que a qualidade musical vem decaindo desde a década de 1960, década cujo lema pode ser sintetizado na frase “é proibido proibir” que representa a relativização moral, mas o que não se sabe bem é o porquê dessa decadência musical. Além da relativizarão moral oriunda do freudiano-marxismo, existe também a relativização estética. Agora não existe belo ou feio, estes são termos da sociedade capitalista opressora. O homem novo deve se libertar de qualquer padrão estético; e isso se reflete na criação artística, com seus principais efeitos na composição musical (músicas pobres e com letras sem sentido). 

[…] Os excessos de decibéis provêm de um modo da música rock, “música jovem” por excelência. Não pode haver rock sem tumulto, quer ele se dê num concerto público, numa discoteca ou em auditório privado, numa casa. Pois fizeram as pessoas crerem que a juventude ideal deve ser brutal, desrespeitosa, liberta de toda restrição, de toda disciplina, de toda moral, de toda reserva, logo, que ela deve amar e até adorar o barulho, a desordem e a violência. (Dr. MINH DUNG NGHIEM. Música, inteligência e personalidade, pag. 62)

O papel da música é, hoje, criar o caos e corromper a juventude, em suma, recriar o homem primitivo, emocionalmente instável e fácil de ser controlado. Vale destacar que o autor do livro, nesta citação, fala especificamente do rock, mas gêneros como o rap e o funk, além da música eletrônica, muito adorados no Brasil e no mundo, são igualmente prejudiciais e, às vezes, até mais danosos ao ouvinte do que a selvageria do rock’n’roll. Com efeito, a “juventude perdida” não é obra do acaso, é apenas o efeito da ação de diversos fatores da vida moderna (educação, música, vida espiritual, tecnologia, etc.)

A taxa de suicídios entre os jovens aumenta vertiginosamente e suscita a ideia de que há uma fragilização da personalidade, como no caso dos verdadeiros primitivos: a mentalidade selvagem ressurge malgrado a escolarização obrigatória e a proliferação de educadores. (Dr. MINH DUNG NGHIEM. Música, inteligência e personalidade, pag. 176)

A república dos prazeres é a junção do materialismo freudiano-marxista com a vontade de retornar ao estado primitivo de Rousseau; em suma, é a expressão máxima do vazio e dos divertimentos pueris. Tudo isso suscitado pelos globalistas que não veem a hora de controlar todas as pessoas a fim de criar uma sociedade utópica, um paraíso na terra. Os globalistas enxergam a humanidade como ovelhas: eles são os donos da sabedoria, os pastores que guiarão a humanidade na construção do mundo idílico e quimérico. Não é de se espantar que a vida moderna seja um caos. Não é de se espantar que as pessoas estejam tão perdidas e confusas. Àqueles que ainda conseguem enxergar a realidade, resta apenas o autodidatismo: educar-se a si mesmo a fim de emancipar o pensamento e estimular a inteligência.

A ditadura dos diplomas

“De fato, o traço mais conspícuo da mente dos nossos compatriotas era o desprezo soberano pelo conhecimento, acompanhado de um neurótico temor reverencial aos seus símbolos exteriores: diplomas, cargos, espaço na mídia.” (Olavo de Carvalho, Desejo de conhecer)

Há alguns anos tenho percebido algo estranho que talvez passe despercebido para a maioria dos brasileiros: no Brasil existe uma cultura de quase culto a cargos e aos diplomas – e vale destacar que digo “quase” apenas para denotar que não há um culto em si, uma celebração litúrgica. E, de fato, esta tal cultura existe e domina o inconsciente da maioria dos brasileiros. Quem nunca pensou, por exemplo, em estudar para a prova? Apesar de ser um simples pensamento – talvez até lógico –, a verdade é que o “estudar para prova” denota que o brasileiro só estuda para ganhar algo em troca (no caso da prova, uma nota), ou melhor, se souber que ganhará algo em troca. E qual é o problema nessa questão? Não é correto estudar para atingir uma boa nota? E a resposta é: pode até ser, mas antes se o resultado (a nota) for um efeito do estudo, e não um objetivo mesmo do porquê do estudo; ou seja, a causa primária do estudo deve ser o desejo pelo conhecimento, por aprender.

Infelizmente, essa mentalidade é comum a maioria dos brasileiros: algo sempre é efeito visando antes os efeitos benéficos que o processo edificante em si que causa o efeito (no caso de estudar, é adquirir conhecimento, tornar-se mais inteligente). Agora, pois, a epígrafe deste artigo pode fazer sentido ao leitor: o brasileiro odeia estudar, mas ama os frutos do estudo. E com essa cultura intelectual medíocre, não é de se assustar que o Brasil sempre ocupe os últimos lugares nos rankings de educação. A situação dos universitários brasileiros é pior ainda: são raras as ocasiões em que um universitário sabe o básico de matemática e da própria língua que fala, o português. Como explicou o grande – e infelizmente já falecido – prof. Pierluigi Piazzi em sua coleção de livros sobre Neuroaprendizagem, a maioria das pessoas, na verdade, não tem culpa disso. O brasileiro, desde a infância, participa de um sistema de ensino falido. Não há outro resultado senão a mediocridade intelectual.

Entre nós predominou (…), em cultura, o mais espantoso praticismo que já alguma vez assolou uma nação. Em ensino primário, basta nos alfabetização e, acima dele, bastar-nos-ia, todos o repetem, ensino de ofícios e artes. Que estranho país seria esse em que a cultura e a ciência ainda não chegaram a ser aceitas e, por toda parte, se pede tão singular e universal formação utilitarista, no sentido limitado e restrito da palavra? Esse é o país dos diplomas universitários honoríficos, é o país que deu às suas escolas uma organização tão fechada e tão limitada que substituiu a cultura por duas ou três profissões práticas, é o país em que a educação, por isso mesmo, se transformou em título para ganhar emprego. O que há são demasiadas escolas de certo tipo profissional, distribuindo anualmente diplomas em número maior que o necessário e o possível, no momento, de se consumir.

(Trecho do discurso de Anísio Teixeira na inauguração dos cursos da Universidade do Distrito Federal em 1935. Obs: mais atual do que nunca na era PT.)

E qual é o efeito disso? Qual é o efeito dessa mentalidade em função do desenvolvimento do Brasil? O efeito é catastrófico. Enquanto países como os Estados Unidos são referência mundial em termos de educação, o Brasil rasteja pela lama da mediocridade. Além disso, numa análise mais próxima a realidade do brasileiro, a “ditadura dos diplomas” só incentiva essa mediocridade. Ninguém estuda para ter conhecimento, ninguém vê o estudo como um possível alimento da alma; antes se estuda para conseguir um emprego, um cargo, etc. Quem estuda para acumular conhecimento, então, é tratado com desdém – principalmente pelos jovens. Eu mesmo, quando digo que amo estudar, e que essa é minha vocação, sou tratado com indiferença pelo meu círculo de amizade. O fato de eu querer deixar ignorância parece incomodar àqueles que se conformaram com a desgraça brasileira. Contudo, não posso culpá-los. Como a maioria dos brasileiros, eles vivem em um ambiente que não exorta sequer uma pequena inspiração que os possa levar a buscar algo maior que eles.

[…] No Brasil isso não existe. O ambiente visual urbano é caótico e disforme, a divulgação cultural parece calculada para tornar o essencial indiscernível do irrelevante, o que surgiu ontem para desaparecer amanhã assume o peso das realidades milenares, os programas educacionais oferecem como verdade definitiva opiniões que vieram com a moda e desaparecerão com ela. Tudo é uma agitação superficial infinitamente confusa onde o efêmero parece eterno e o irrelevante ocupa o centro do mundo. Nenhum ser humano, mesmo genial, pode atravessar essa selva selvaggia e sair intelectualmente ileso do outro lado. Largado no meio de um caos de valores e contravalores indiscerníveis, ele se perde numa densa malha de dúvidas ociosas e equívocos elementares, forçado a reinventar a roda e a redescobrir a pólvora mil vezes antes de poder passar ao item seguinte, que não chega nunca.

(Olavo de Carvalho, A origem da burrice nacional)

Resolver esse problema não é fácil porque trata-se de um “tumor” cultural. Contudo, é possível fazer algo: o governo deve investir na base da educação, isto é, no ensino fundamental. O Brasil, p. ex., investe mais que os Estados Unidos em educação, mas investe mal. Investe mais no ensino superior que no básico. Qual a lógica de mandar analfabetos funcionas à faculdade? O Brasil só será um país próspero quando sua cultura for igualmente próspera e grandiosa. Do contrário, não importa quantos empregos sejam criados, não importa o quão boa esteja a economia, o povo brasileiro continuará preso às amarras mentais que tanto o impede de evoluir; e, obviamente, o Brasil continuará sendo um país medíocre. 

A mentalidade revolucionária e Fernando Pessoa

Todo o dia, em toda a sua desolação de nuvens leves e mornas, foi ocupado pelas informações de que havia revolução. Estas notícias, falsas ou certas, enchem-me sempre de um desconforto especial, misto de desdém e de náusea física. Dói-me na inteligência que alguém julgue que altera alguma coisa agitando-se. A violência, seja qual for, foi sempre para mim uma forma esbugalhada de estupidez humana. Depois, todos os revolucionários são estúpidos, como, em grau menor, porque menos incómodo, o são todos os reformadores.

Revolucionário ou reformador — o erro é o mesmo. Impotente para dominar e reformar a sua própria atitude para com a vida, que é tudo, ou o seu próprio ser, que é quase tudo, o homem foge para querer modificar os outros e o mundo externo. Todo o revolucionário, todo o reformador, é um evadido. Combater é não ser capaz de combater-se. Reformar é não ter emenda possível.

O homem de sensibilidade justa e reta razão, se se acha preocupado com o mal e a injustiça do mundo, busca naturalmente emendá-la, primeiro, naquilo em que ela mais perto se manifesta; e encontrará isso no seu próprio ser. Levar-lhe-á essa obra toda a vida.

Tudo para nós está no nosso conceito do mundo; modificar o nosso conceito do mundo é modificar o mundo para nós, isto é, é modificar o mundo, pois ele nunca será, para nós, senão o que é para nós. Aquela justiça íntima pela qual escrevemos uma página fluente e bela, aquela reformação verdadeira, pela qual tornamos viva a nossa sensibilidade morta — essas coisas são a verdade, a nossa verdade, a única verdade. O mais que há no mundo é paisagem, molduras que enquadram sensações nossas, encadernações do que pensamos. E é-o quer seja a paisagem colorida das coisas e dos seres — os campos, as casas, os cartazes e os trajos — quer seja a paisagem incolor das almas monótonas, subindo um momento à superfície em palavras velhas e gestos gastos, descendo outra vez ao fundo na estupidez fundamental da expressão humana.

Revolução? Mudança? O que eu quero deveras, com toda a intimidade da minha alma, é que cessem as nuvens átonas que ensaboam cinzentamente o céu; o que eu quero é ver o azul começar a surgir de entre elas, verdade certa e clara porque nada é nem quer.

 

TEXTO RETIRADO DO LIVRO DO DESASSOSSEGO DE FERNANDO PESSOA.

Consciência & sentido da vida

Muito se fala sobre o mal da depressão, da ansiedade e da solidão na sociedade, porém pouco se fala da origem deste mal, de sua causa mesmo que, apesar de não ser sui generis, é visto por acadêmicos e especialistas como enigma. Estamos no século dos males e da mediocridade, mas não por acaso: não existiu, na história humana, um tempo em que mais se renegou a consciência humana e seu poder cognoscível do que no século XXI. A maioria das ideologias nefastas do século XX tomaram formas menos palpáveis e confundiram-se com as “lutas pela humanidade” deste século. Tais ideologias são o comunismo, socialismo, fascismo e muitas outras. Ambas de cunho totalitário, desprezam veementemente a capacidade humana de autodomínio e autodeterminação; para seguidores destas quase seitas, o homem, assim, não passa de matéria a ser moldada ou transformada, não passa de um ser acéfalo que precisa ser sempre guiado como um fazendeiro guia os porcos ao curral. Apesar deste diagnóstico lógico ser conhecido hoje no Brasil em decorrência da crescente onda conservadora, Frédéric Bastiat, autor do excelente A Lei, já havia feito o mesmo diagnóstico antes de 1850: deseja-se suprimir a inteligência humana; deseja-se obliterar a consciência humana a fim de transformar a raça humana em massa acéfala de tal forma que ninguém se quer perceba. E tudo isso está muito bem documentado na recente obra Maquiavel Pedagogo do francês Pascal Bernadin. E não se engane, algumas “teorias da conspiração” são bem reais e, em geral, advém das novas ordens mundiais — conhecidas comumente por globalismo. Não se assuste com esse termo “conspiracionístico” pois sempre existiu, na história da humanidade, grupos de pessoas que queriam suplantar ordens ou criar outras e, no caso do(s) globalismo(s), pretende-se criar uma sociedade utópica à la 1984 de George Orwell. Não é de se estranhar, assim, que as artes e tudo quanto é possível são e serão usadas para realizar o intento de criar um “mundo perfeito” (leia-se um mundo onde ninguém pensa). Se você tem alguma consciência e uma pequena apuração em seu gosto musical, por exemplo, já percebeu há muito tempo que o pop internacional está saturado e que sua qualidade é medíocre em termos musicais — o cenário é pior ainda quando analisamos a música brasileira. Agora, se você tem um pouco mais de consciência e interesse, já percebeu que a maioria dos artistas de hoje sempre repetem os mesmos jargões: luta pelas minorias, salvação do planeta, luta contra o preconceito e apoio à utopia comunista, etc. Além da questionável qualidade da música moderna, os artistas que as cantam são praticamente robôs e/ou humanos entorpecidos que repetem a mesma retórica sempre. E, para piorar, a queda na qualidade musical não é obra do acaso, na verdade foi muito bem deliberada, ou seja, há um propósito em destruir a beleza musical: criar o caos, imbecilizar, reduzir a consciência humana a fim de fazer o indivíduo ficar à deriva de suas emoções (animalização do homem). Tudo isso também foi muito bem documentado. Desta vez pelo médico franco-vietnamita, dr. Minh Dung Nghiem, em sua obra Música, Inteligência e Personalidade recém traduzida para o português.

Portanto me é de suma importância desintoxicar o leitor da vida moderna e jogar um pouco de luz no debate sobre autoconhecimento e sentido da vida; afinal, “o homem pode suportar tudo, menos a falta de sentido” (Viktor Frankl).

CONSCIÊNCIA

Começarei falando sobre o que é objeto de repúdio dos revolucionários (a.k.a. qualquer pessoa que advogue pelo comunismo): a consciência. Vale destacar que a consciência, como a mais alta capacidade de perceber e compreender a realidade, também pode ser entendida como inteligência na definição do filósofo Olavo de Carvalho: “a inteligência não é um instrumento, um aspecto, um órgão do ser humano: ela é o ser humano mesmo, considerado no pleno exercício daquilo que nele há de mais essencialmente humano.” (ênfase minha; trecho de “O Poder de Conhecer” publicado em O Globo a 4 de Agosto de 2001)

Por conta deste ódio contra a consciência, a maioria das pessoas não possui controle sobre suas próprias vidas, não as foi ensinado a desenvolver e contemplar suas consciências como a força motriz que as move e as possibilita deslumbrar-se com o universo — a inteligência em sua forma mais bruta. Toda essa inconsciência vem gerando desastres em todo o mundo. Ninguém sabe sequer o que está fazendo, não pelo menos em um plano profundo. A vida moderna se tornou uma tarefa automática, e só conseguimos perceber isso porque ainda não fomos todos entorpecidos pela mentalidade revolucionária alienadora: ainda gozamos de certa autonomia mental e precisamos usar isso para nos livrarmos dos grilhões totalitários de qualquer ideologia nefasta que seja. A situação, contudo, é pior ainda no Brasil, onde desenvolveu-se uma cultura de conformismo à vida medíocre e desgraçada; grande parte dos brasileiros não dão atenção para seu próprio interior, muito menos para seu imaginário, ignoram totalmente seus sonhos, gostos e devaneios — para não dizer que os tratam com demasiada indiferença. O caos resultante da inconsciência torna a vida extremamente inconstante; em suma, cada dia pode ser separado em altos e baixos: ânimo e desânimo, lapsos de racionalidade e momentos de histeria, depressão e hiperatividade — nunca há um meio-termo, um ponto de equilíbrio.

Assim sendo, é necessário que cada pessoa se “destrinche”. O que eu quero dizer com isso é simples: se conheça, se deixe florescer. Apenas o autoconhecimento mesmo tem o poder de te mostrar as lacunas de sua consciência. Vale destacar que este processo é lento. O mais importante é criar uma rotina de reflexão. Ademais, é de suma importância que se dê atenção às vocações. Infelizmente, é comum ver pessoas trabalhando com o que odeiam no Brasil; fazendo coisas para pura e simplesmente “sobreviver”. O pior é que fazem isso a pretexto de estarem sendo maduras pois nem tudo na vida é como se deseja. No entanto, o que não é dito e subentende-se é que às vezes precisamos sim fazer coisas que não desejamos, mas isso só é válido quando falamos de situações momentâneas e circunstanciais, ou seja, não se aplica a vida toda. Realizar uma atividade que lhe é extremamente desprazerosa e custosa ao longo da vida a pretexto de sobreviver não é escolha de “gente madura”; e o custo disso, claro, é muito alto porque trata-se de uma vida inteira jogada no lixo. Portanto atenha-se a si mesmo; faça a leitura de sua alma, um exame de consciência. Não sustente a tal mentalidade que vê o sucesso como um insulto pessoal. Sonhe acordado. Deixe sua imaginação te levar para um mundo quimérico. Assim é possível ter uma percepção maior do ser: tu és o que tu pensas que é — tu és o que tu pensas. Ex nihilo nihil fit, muito menos você!

SENTIDO DA VIDA

A essa altura o leitor já deve ter esquecido, mas eu não. Voltemos ao início. A maioria dos males do século XXI são, na verdade, “doenças da alma”. Isso quer dizer que falta espiritualidade, sentido de vida nas pessoas.

Frankl observou que, de todos os prisioneiros, os que melhor conservavam o autodomínio e a sanidade eram aqueles que tinham um forte senso de dever, de missão, de obrigação. A obrigação podia ser para com uma fé religiosa: o prisioneiro crente, com os olhos voltados para o julgamento divino, passava por cima das misérias do momento. Podia ser para com uma causa política, social, cultural: as humilhações e tormentos tornavam-se etapas no caminho da vitória. Podia ser, sobretudo, para com um ser humano individual, objeto de amor e cuidados: os que tinham parentes fora do campo eram mantidos vivos pela esperança do reencontro. Qualquer que fosse a missão a ser cumprida, ela transfigurava a situação, infundindo um sentido ao nonsense do presente. Esse senso de dever era a manifestação concreta do amor – o amor pelo qual um homem se liberta da sua prisão externa e interna, indo em direção àquilo que o torna maior que ele mesmo.

(Trecho de “A mensagem de Viktor Frankl”, escrito por Olavo de Carvalho publicado em Bravo!, novembro de 1997)

Em suma, o que faz uma pessoa ter sucesso ou não nesta vida é o sentido de dever ou obrigação para com alguma causa, pessoa, missão, etc. Assim as provações da vida são apenas partes do caminho que levam à vitória. O sentindo da vida é, como disse Olavo de Carvalho, “universal no seu valor, individual no seu conteúdo”, portanto é extremamente subjetivo; “eis aí por que é inútil buscar provas teóricas do sentido da vida: ele não é uma máxima uniforme, válida para todos é a obrigação imanente que cada um tem de transcender-se.” Outrossim, o sentida da vida é a esperança mesma e vise-versa  quando não há esperança, não há razão para se viver. 

PRINCÍPIO DA PRUDÊNCIA: UMA DESINTOXICAÇÃO CULTURAL

A fim de proporcionar o “desentorpecimento” da mente humana na modernidade, o princípio da prudência do conservadorismo pode ser bastante útil nesta tarefa. E o que este princípio diz? Em suma, tudo em excesso faz mal. Portanto, se o leitor deseja cultivar um estado de sobriedade mental a fim de se conhecer melhor, é importante que haja uma reflexão sobre estímulos externos à pessoa; isto é, uma análise calcada na prudência em relação à música, televisão, alimentação, educação, estado emocional, etc. A seguinte pergunta deve ser respondida individualmente: o que os estímulos externos suscitam em mim? ou como eu sou afetado pelo mundo a minha volta?

A música é feita de componentes acústicos: quantidades de energia que provocam pulsos elétricos no ouvido interno. Elas se propagam para o cérebro sobre a forma de trens de ondas perfeitamente identificáveis pelos equipamentos de engenharia acústica.

Estes trens de ondas tomam diferentes circuitos nervosos para serem analisados, identificados, comparados, etc. Sua passagem despolariza esses circuitos que então se restauram para poder coletar as ondas seguintes. Se a frequência for muito alta, alguns circuitos não têm tempo de se recuperar antes de chegarem as novas ondas, assim sua condução acaba bloqueada: é a tetanização. Segue-se que algumas partes do cérebro (os órgãos para percepção fina dos sons, por exemplo) se apartam do mundo exterior, que para de ser percebido e reconhecido. Durante esse período em que a percepção está como suspensa, cancelada, o cérebro direito emocional continua a ser estimulado por determinadas batidas (que são informações mais grosseiras), cujas vias de condução continuam ativas. Em suma, o transe será um estado de consciência alterada no qual o cérebro intelectual está perturbado, desligado do mundo exterior, e o cérebro emocional está excitado ao máximo.

Em termos de música, por exemplo, o dr. Minh Dung Nghiem deixa claro que a maioria das músicas modernas são prejudiciais à sanidade mental — a música é um instrumento poderoso que pode ser usado tanto para o bem quanto para o mal; algumas músicas tem o poder de relaxar, aumentar a consciência e até mesmo o QI (coeficiente de inteligência), já outras podem criar caos e a confusão (até mesmo gerar violência), sem falar da animalização do ouvinte que, entorpecido pela música, fica à deriva das emoções, sem controle racional algum de si.

Não existe outra conclusão senão a de que a prudência e a busca pelo conhecimento deve guiar nossas vidas no mundo moderno; mundo este que não respeita mais nossa própria natureza e, apesar de todos os fracassos concernentes a tentativas de transformação do homem, ainda tenta nos impor ideologias utópicas refutadas pela própria experiência desde o século XVIII (Revolução Francesa). Já ensanguentadas, agora tais ideologias querem nos moldar de forma indireta e de certa forma vem conseguindo. Mas o poder da consciência humana, quando estimulado, é supera qualquer desafio. A vida nas sociedades atuais exige estudo e busca pela verdade, do contrário tudo o que sobra é inconsciência e o subsequente caos por razão da incompreensão da realidade vivida.

Sobre MAQUIAVEL PEDAGOGO ou o ministério da reforma psicológica

Na obra documental Maquiavel Pedagogo do francês Pascal Bernadin, temos acesso a uma vasta documentação que comprova a revolução pedagógica ensejada para “impor uma nova ética voltada para a criação de uma nova sociedade”, em suma, para erigir uma sociedade intercultural nos moldes da utopia comunista.

Este artigo é de suma importância: nele tentarei expressar resumidamente e objetivamente tudo o que o livro nos revela, portanto, essencial para compreender a configuração atual do mundo, principalmente as mudanças ocorridas na área da educação e seus efeitos. Assim sendo, para facilitar o entendimento inicial do tema, um pequeno trecho da introdução do livro:

Uma revolução pedagógica baseada nos resultados da pesquisa psicopedagógica está em curso no mundo inteiro. Ela é conduzida por especialistas em Ciências da Educação que, formados todos nos mesmos meios revolucionários, logo dominaram os departamentos de educação de diversas instituições internacionais: UNESCO, Conselho da Europa, Comissão de Bruxelas e OCDE. […] Essa revolução pedagógica visa a impor uma “ética voltada para a criação de uma nova sociedade” e a estabelecer uma sociedade intercultural. A nova ética não é outra coisa senão uma sofisticada reapresentação da utopia comunista. O estudo dos documentos em que  tal  ética está definida não deixa margem  a qualquer dúvida: sob o manto da ética, e sustentada por uma retórica e por uma dialética frequentemente notáveis, encontra-se a ideologia comunista, da qual apenas a aparência e os modos de ação foram modificados. A partir de uma mudança de valores, de uma modificação das atitudes e dos comportamentos, bem como de uma manipulação da cultura, pretende-se levar a cabo a revolução psicológica e, ulteriormente, a revolução social. […] As escolas normais foram substituídas pelos Institutos Universitários de Formação de Mestres (IUFMS) [na França]. Eles se caracterizam pela importância que neles se dá às “ciências” da educação e à psicopedagogia. Esses institutos preparam os professores para a sua nova missão: redefinido o papel da escola, a prioridade é, já não a formação intelectual, mas o ensino “não cognitivo” e a “aprendizagem da vida social”. Também aqui o objetivo é modificar os valores, as atitudes e os comportamentos dos alunos (e dos professores). Para isso, são utilizadas técnicas de manipulação psicológica e de lavagem cerebral. […] Os ensinos formal e intelectual são negligenciados em proveito de um ensino não cognitivo e multidimensional, privilegiando o social. A reforma pedagógica introduzida no Ensino Médio tende igualmente a uma profunda modificação das práticas pedagógicas e do conteúdo do ensino. […] Ademais, o nível escolar continuará decaindo, o que, aliás, não surpreende, já que o papel da escola foi redefinido e que sua missão principal não consiste mais na formação intelectual, e sim na formação social das crianças; já que não se pretende fornecer a elas ferramentas para a autonomia intelectual, mas antes se lhes deseja impor, sub-repticiamente, valores, atitudes e comportamentos por meio de técnicas de manipulação psicológica. Com toda nitidez, vai-se desenhando uma ditadura psicopedagógica. […] (pag. 9-12)

NOTA: como no meu artigo anterior, tenho que deixar claro que todas as citações são do livro, indicadas com a página. Vale ressaltar que quando houver uma citação da citação, haverá um asterisco (*) no final da indicação das páginas de referências; haverá também, em caso de alguma indicação na citação, igual indicação (nota) no final da indicação das páginas da citação. Ademais, optei por omitir certos capítulos que não eram de suma importância para o entendimento do assunto ou que simplesmente focavam-se na manipulação psicológica na França.

AS TÉCNICAS DE MANIPULAÇÃO PSICOLÓGICA (PAG. 15-31)

Neste primeiro capítulo o autor dedica-se a fazer o leitor tomar conhecimento das técnicas de manipulação psicológica. É muito interessante como Pascal Bernadin tem o cuidado de demonstrar cada técnica informando, ao mesmo tempo, as fontes. Tais técnicas realmente foram desenvolvidas por profissionais da área da psicologia e visam a manipulação por engajamento: “As técnicas de manipulação psicológica tornaram-se objeto, já há muitas décadas, de aprofundados trabalhos de pesquisa realizados por psicólogos e psicólogos sociais, tanto militares quanto civis. É, às vezes, difícil, e psicologicamente desconfortável, admitir sua temível eficácia.” (pag. 15)

Nesta parte me aterei apenas às técnicas de manipulação mais relevantes; o leitor deve ler o livro para conhecer com mais profundidade a questão.

A submissão à autoridade

A primeira técnica diz respeito à tendência das pessoas de se submeterem à autoridade mesmo que isso as induza a realizar ações que contradigam seus valores e opiniões. Para provar isto, um teste é feito onde há um pesquisador, um professor e um colaborador; este último em conluio com o pesquisador. O professor deve fazer perguntas ao colaborador, caso este erre, lhe é aplicado um choque. A intensidade do choque é aumentada conforme os erros do colaborador que, na verdade, não recebe choque algum, mas finge gemidos e, quando o choque, em tese, é muito forme, grita de dor. Quando o colaborador começa a receber choques mais altos, os professores começam a ficar relutantes com o teste, pedindo assim ao pesquisador que o libere, porém o pesquisa insiste que o professor continue; então o professor continua, sob pressão, a realizar a pesquisa: “A autoridade do pesquisador é um fator fundamental.” (pag. 17) Se o professor pede mais de três vezes para parar, o pesquisador encerra o teste e libera o professor. O teste obteve grande sucesso; ademais quando não é professor que aplica os choques, mas outra pessoa além do pesquisador, foi constatado que o professor consegue prosseguir por mais tempo no teste.

Conformismo ou normas de grupo

Pascal Bernadin apresenta um estudo que foi feito para entender como as pessoas aderem a normas sócias e como o conformismo pode alterar valores e comportamentos. O resultado foi que pessoas com baixa autoestima, ansiedade, depressão, etc., tendem ao conformismo. O indivíduo conformista tende a concordar com as decisões do grupo mesmo quando erradas por medo de rejeição e por pressão psicológica porque não possui convicção em si mesmo: “Verifica-se também que os indivíduos conformistas, interrogados após a experiência, depositaram sua confiança na maioria, decidindo-se pelo parecer desta, apesar da evidência perceptiva. Sua motivação principal está na falta de confiança em si e em seu próprio julgamento. Outros conformaram-se à opinião do grupo para não parecer inferiores ou diferentes. Eles não têm consciência de seu comportamento.” (pag. 19) Ademais, quando o indivíduo é submetido à opinião de alguém de prestígio social ou a de um especialista a tendência de concordar, mesmo que a opinião esteja errada, aumenta consideravelmente.

Assim compreende-se o porquê da mídia mainstream e da classe artística internacional (músicos, atores, etc.) estarem tão ligados a ideias progressistas e, no fundo, à militância globalista — mesmo de forma inconsciente. Isso se dá pois é necessário cooptar as ‘celebridades’ para facilitar a manipulação psicológica e a lavagem cerebral que criam as pessoas perfeitas para uma sociedade global e comunista.

Dissonância cognitiva

A dissonância cognitiva é muito importante para entender como a alteração de valores e comportamentos se dá; uma dissonância cognitiva é basicamente uma contradição de elementos do psiquismo, ou seja, um interiorização das ações que um indivíduo faz que diz respeito as suas convicções, valores, sentimentos, opiniões, recordações, atos, conhecimentos, etc. Para gerar dissonâncias é preciso que os indivíduos realizem certos atos, de forma livre, que não concordem ou tenham certa relutância, assim suas convicções podem ser alteradas de forma imperceptível já que a interiorização será automática e sem a consciência de estar sendo manipulado. As alterações se dão de forma tão tácita que provavelmente até você, leitor, já deve ter passado por isso e não percebeu.

A Aplicação da Psicologia Social na Educação (pag. 33-37)

Neste capítulo Bernadin mostra como a aplicação da psicologia social na educação vem subvertendo valores e destruindo as bases da civilização ocidental. Para acelerar a mudança de atitudes é usado métodos ativos na educação, isto é, exorta-se engajamento dos alunos a fim induzir dissonâncias cognitivas — quanto mais os comportamentos dos alunos divergirem de suas convicções, mais rápida e certa será a mudança de atitudes.

Dito sem rodeios, o sujeito adere à sua decisão e, assim, quanto maior o seu engajamento em um comportamento, tanto “maior será a mudança de atitudes caso o comportamento divirja das convicções anteriores do sujeito, e tanto maior será a resistência às propagandas ulteriores caso esse comportamento concorde com as opiniões prévias…” […] fatores que permitem manipular o engajamento: o caráter explícito do ato, sua importância, seu grau de irrevogabilidade, o número de vezes em que foi realizado, e, sobretudo, o sentimento de liberdade quando de sua realização. (pag. 34-35)

Por conseguinte nota-se a importância dos atos e do que se tratam as aulas; nossas posições podem facilmente se alterarem quando somos induzidos a realizar ações que não concordamos. Ademais, o único jeito de não cair em dissonância cognitiva é arrepender-se profundamente do ato realizado, desenvolvendo, assim, uma grande culpa. Infelizmente, o papel da educação foi subvertido em todo o mundo: educação é, hoje, controle social por meio de engajamento e técnicas de manipulação. Até mesmo a formação de docentes foi completamente afetada, não mais se forma professores que estimulem a inteligência em seus alunos, mas professores que cumprem com o papel das novas reformas — ou nova educação — de imbecializar seus alunos.

A Unesco, A educação e o controle psicológico (pag. 39-48)

Quando pensamos em manipulação psicológica e lavagem celebral, logo vem a mente, quem está por trás disto? Bom, neste caso, a resposta é simples: a maioria das organizações não governamentais internacionais, a ONU e os globalistas, etc. Bernadin mostra de assaz maneira como organizações internacionais são as responsáveis, muitas vezes, por influenciar governos a legislarem de forma a favorecer a implementação das “reformas pedagócias” e/ou “reformas na educação”. Tais reformas visam unicamente à modificação de valores, atitudes e personalidade a pretexto de combater a discriminação e o preconceito, em suma, “aperfeiçoar as atitudes humanas”. Consequentemente as ciências sociais (humanas) são as mais afetas para por em prática a manipulação psicológica — tais ciências tratam de problemas humanos, por isso são o foco.

A experiência escolar pode desempenhar um papel capital, ao desenvolver particularmente aqueles aspectos da personalidade relacionados às interações sociais da criança. A aplicação das pesquisas sobre grupos apresenta igualmente uma importância particular, uma vez que, como se sabe, o processo educacional não consiste apenas na transmissão de informações, mas se trata, mais do que isso, de um fenômeno altamente complexo de dinâmica de grupo, no qual intervêm as relações, de difícil análise, entre aluno e professor, e, sobretudo, entre o aluno e seus pares. Na medida em que o grupo de pares representa para a criança um quadro de referência, ele contribui em larga medida para a modificação das atitudes sociais (p. 42).

“As ciências totalmente ‘inúteis’, a história, a filosofia, os estudos literários, são justamente as favoritas dos regimes totalitários, que as abraçam até sufocá-las” (Otto Maria Carpeaux, A Ideia de Universidade e as ideias das classes médias)

Todas as reformas são arquitetadas a fim de transformar a sala de aluna em um grupo de discussões, assim facilitando a inculcação de ideais comunistas e suscitando a mentalidade revolucionária:

Do mesmo modo, entre as provas mais concludentes em favor da influência do grupo sobre a atitude do indivíduo, figuram os resultados dos célebres trabalhos de Asch (1951, 1952). Essas experiências centraram-se nas condições sob as quais o indivíduo ou resiste ou termina por ceder às pressões do grupo, assim que essas pressões são percebidas como contrárias à realidade dos fatos. […] Um grande número de pesquisas demonstraram que, para colegiais e universitários, o fato de pertencer a grupos de pares pode ter um efeito cada vez maior sobre a modificação de suas atitudes à medida que, para eles, esses grupos se tornam mais importantes como grupos de referência. […] Com efeito, os grupos de pares, sobretudo aqueles que se formam no âmbito da escola ou da universidade, podem muito bem tornar-se grupos de referência e promover um efeito positivo sobre a modificação das atitudes, contribuindo dessa forma a dirimir o “atraso cultural”, tão evidente na sociedade contemporânea (p. 43).

Ademais, afim de erigir a revolução psicológica, primeiro se precisa de uma revolução cultural. A cultura desempenha um papel fundamental na alteração de valores pois é a expressão máxima de uma sociedade: “O fato de que a cultura e a sociedade, em seu conjunto, sejam um fator muito importante na formação, na conservação e/ou na modificação das atitudes sociais é uma evidência à qual já nos referimos diversas vezes.” (pag. 47) Aos céticos vale destacar que tudo que já comentei é possível e foi deliberado: “Os estudos que acabamos de referir ilustram simplesmente o fato de que as mais importantes mudanças de atitude e de comportamento no conjunto de uma sociedade são possíveis ao final de um certo tempo. Poderíamos citar muitos outros casos que confirmam essa conclusão. Essas modificações são o resultado cumulativo dos esforços combinados de diversas pessoas e organizações que utilizam modos e métodos diferentes  de abordagem.” […] “Não há dúvida de que, por exemplo, as declarações públicas de altas personalidades do governo e de outros dirigentes cuja opinião é respeitada pela população podem exercer uma enorme influência sobre as atitudes e o comportamento dessa população. As medidas de ordem legislativa oferecem à sociedade um outro meio, um pouco mais coercitivo, de exercer sua vontade sobre os indivíduos que a compõem. Do mesmo modo, aquelas forças econômicas que agem sobre o conjunto da sociedade desempenham um papel capital na vida quotidiana dos indivíduos, condicionando, assim, suas atitudes e seu comportamento.” (pag. 48)

A redefinição do papel da escola e o ensino multidimensional (pag. 49-55)

Neste pequeno capítulo o autor dedica-se a mostrar as consequências da redefinição do papel da escola. Vale destacar antes o significado de ensino multidimensional: é uma educação voltada à vida social e aos aspectos do meio ambiente, com efeito, o ensino possui várias dimensões, podendo ser extracurricular, dinâmico, em suma, tudo o que for preciso para engajar os alunos.

A massificação e ‘democratização’ da educação se reflete na queda brutal do nível escola, tudo isto, claro, deliberadamente pensado:

Preocupados com essas tarefas bem mais progressistas que os ensinamentos clássicos, os professores não possuem mais, evidentemente, nem tempo, nem as competências, nem o desejo de prestar um ensino sólido. O desmoronamento do nível escolar é, pois, a consequência inelutável dessa redefinição da escola:

Essa visão expandida das responsabilidades do setor educacional não implica somente uma maior relevância dos conteúdos de formação e sua adequação ao ambiente socioeconômico, mas também uma modificação radical das finalidades dos sistemas educacionais. É preciso romper com uma concepção elitista, profundamente ancorada nas mentalidades, tanto da parte dos educadores quanto da dos pais, que privilegia os  aspectos mais acadêmicos de ensino, e segundo a qual a escola primária prepara para o ensino secundário, o qual, por sua vez, prepara para os estudos superiores. A escola para todos deveria ser o instrumento do desenvolvimento individual e do desenvolvimento econômico e social, e não da mera reprodução social a serviço de uma minoria.

Em relação a isso, a mesa redonda trouxe à luz a necessidade de uma educação “multidimensional”, que leve em consideração todos os aspectos da criança em seu ambiente e não se limite à inculcação somente de competências cognitivas. Assegurar o êxito de todos significa antes modificar as finalidades dos sistemas de ensino que privilegiam a competição e a seleção, e, portanto, modificar os objetivos e os critérios de avaliação dos alunos, para evitar que um fracasso no exame não conduza à exclusão social. […]

O esforço de reestruturação dos programas e métodos  escolares, além de objetivar sua maior relevância, deveria igualmente se aplicar, na medida do possível, em estabelecer um melhor equilíbrio entre diversos tipos de atividades, especialmente aquelas de caráter cognitivo, as de caráter prático e até utilitário (como o trabalho produtivo) e as que favoreçam o desenvolvimento das capacidades pessoais da criança (criatividade, iniciativa, curiosidade, destreza, resistência, sociabilidade), as atividades artísticas e criativas, a educação física, as atividades a serviço da comunidade. Fazer com que todo aluno possa encontrar sucesso numa dada atividade, e, assim, multiplicar as formas de excelência, é uma condição essencial para provocar na criança uma atitude positiva para com a instituição escolar, fornecer-lhe uma motivação e, desse modo, aumentar suas chances de êxito. (Unesco)

O ensino multidimensional compreende duas partes principais: um ensino ético, destinado a modificar os valores, as atitudes e os comportamentos; e um ensino multicultural, depois intercultural, destinado a rematar essa revolução psicológica mediante uma revolução cultural. (pag. 51-52; grifo meu)

Ademais, as reformas educacionais vêm sendo ensejadas de tal modo que os próprios professores agora contribuem — consciente ou inconscientemente — com a manipulação psicológica:

Os professores e administradores de todas as categorias e de todos os níveis deveriam estar conscientes do papel que exercem no sistema educacional atual e futuro. Eles deveriam compreender que seus papéis e suas funções não são fixos e imutáveis, mas que evoluem sob a influência das mudanças que se produzem na sociedade e no próprio sistema educacional.

Apesar da diversidade dos sistemas educacionais e das disposições que concernem à formação dos professores no mundo, há uma necessidade geral de um exame nacional cuidadoso e inovador, conduzido de maneira realista, das funções e tarefas atribuídas aos professores em termos de política e legislação nacionais. Tais análises em nível nacional, conduzidas com a participação dos próprios professores [engajamento], deveriam levar à criação de perfis profissionais educacionais com uma clara definição dos papéis e funções que a sociedade lhes assinala.

Medidas deveriam ser tomadas para assegurar que sejam atendidas as condições necessárias a que os atuais e os futuros professores estejam conscientes das mudanças em seu papel e estejam preparados para esses novos papéis e funções:

a) O professor está hoje cada vez mais engajado na execução dos novos procedimentos educacionais, explorando todos os recursos dos meios e métodos educacionais modernos. Ele é um educador e um conselheiro que tenta desenvolver as capacidades de seus alunos  e alargar seus  centros de interesse, e não uma simples fonte de informações ou um transmissor do saber; o professor atua em um papel  fundamental  ao dar a seus alunos uma visão científica do mundo.

b) Uma vez que o papel da escola não mais esteja limitado à instrução, deve então o professor, além de suas obrigações ligadas  à escola, assumir mais responsabilidades, em colaboração com outros agentes de educação da comunidade, a fim de preparar  os  jovens  para a vida em comunidade, a vida familiar, as atividades de produção etc. O professor deveria ter mais possibilidades de se engajar em atividades no exterior da escola e fora do curriculum, de guiar e de aconselhar os alunos e seus pais, e de organizar as atividades de seus alunos durante o lazer.

c) Os professores deveriam estar conscientes do papel importante que são chamados a exercer nas comunidades locais como profissionais e cidadãos, como agentes de desenvolvimento e de mudança, e lhes deveriam ser oferecidas as possibilidades de desempenhar esse papel. (Unesco) (pag. 52-53*)

A revolução ética (pag. 57-66)

Para entendermos a revolução psicológica, primeiro precisamos entender o que suscita ela: a revolução cultural & a revolução ética — sem uma das duas não é possível que a revolução psicológica se concretize; não de forma ideal, pelo menos. A revolução cultural diz respeito aos elementos que dão identidade a um povo; com efeito, a subversão da cultura é essencial para criar o caos na sociedade. Ademais, quanto à revolução ética, Bernadin nos mostra seus elementos:

  • os direitos humanos (estendidos ao direito social: direito à habitação, à alimentação, ao trabalho etc.);
  • a bioética;
  • os direitos das crianças (temível arma contra a família);
  • a educação para a paz, a concórdia entre as nações, o desarmamento, o civismo pacífico, a fraternidade humana, a consciência da interdependência entre as nações (Unesco);
  • a educação para o meio ambiente (Comissão de Bruxelas, Unesco);
  • a criação de um “mundo mais justo e solidário, pilar da nova ordem internacional” (Parlamento Europeu);
  • a “experiência da vida em uma sociedade multicultural” (Parlamento Europeu; temas similares na Comissão de Bruxelas e na Unesco);
  • a tolerância (Unesco);
  • a “passagem da competição à cooperação” (Unesco)
  • o desenvolvimento da consciência política (Parlamento Europeu, Unesco);
  • a “paz no espírito dos homens” (Unesco) (pag. 57-58*)

Portanto convém destacar que a revolução ética é um lobo em pele de cordeiro; todos os elementos da nova ética são humanistas de tal modo a esconder seu verdadeiro intento — um cidadão comum nunca desconfiaria de tais elementos, pelo contrário, pensaria ser um avanço que a sociedade toda se adequasse a eles; assim percebe-se o sucesso estratégico dos globalistas.

[…] Creio realmente que a educação pela paz, em certo sentido, é uma atividade revolucionária”. É preciso substituir “educação pela paz” por “educação para os  direitos humanos”. […] Os estudantes devem assimilar a validade sempre atual desses direitos [liberdade religiosa e política], mas, ao mesmo tempo, precisam tomar consciência da crescente importância atribuída pelos países do Terceiro Mundo aos direitos econômicos e sociais, como a previdência social, o pertencimento a sindicatos e um nível de vida aceitável. (pag. 59)

Além disso, a nova ética tem a pretensão de criar uma moral universal e cientificamente embasada, algo que, como explicou o economista austríaco F. A. Hayek, causaria a destruição da ordem espontânea (livre mercado) e, por conseguinte, de toda a civilização. Os globalistas (neossocialistas) acreditam que pode moldar a humanidade criando uma nova moral por meio da razão — ideia essencialmente cientificista e positivista —, desprezando totalmente o valor das tradições morais que evoluíram espontaneamente durante séculos (por tentativa e erro) até as regras de condutas de hoje.

Toda adoção de valores morais e de crenças deve ser realizada cientificamente. Devemos colocar e resolver todos os problemas a partir da pesquisa científica; particularmente, a questão da escolha e da adoção das ideias e das crenças deve ser considerada de maneira científica e com atitudes científicas. (pag. 60; grifo meu)

Como explica Hayek, os socialistas estão errados quantos aos fatos: a obediência a tradições morais espontâneas nos possibilitou gerar e acumular “mais conhecimento e riqueza do que jamais seria possível obter ou utilizar em uma economia de controle central/planejado”. (HAYEK, 1988) A nova ética socialista, assim, suscitaria a anarquia e a miséria. Mas não é a anarquia uma liberação de todos os “grilhões morais” para um globalista (socialista)?

Os ataques à Igreja Católica, às fés cristãs e aos pilares da civilização ocidental — a mais avançada, diga-se de passagem; e a mais livre — foram deliberados. A destruição do cristianismo é fundamental para que a nova ética e o novo sistema social globalista passem a existir. Mas há uma instituição em específico que é o foco do globalismo: a família. A família é a transmissora dos valores morais, das tradições, etc. Transmissões estas que são feitas de geração em geração, sendo, assim, a ponta da lança da civilização ocidental. Ademais, é por essa razão que a educação domiciliar vem sendo brutalmente desestimulada a fim do fortalecimento do controle estatal sobre a educação. Todavia, estudos recentes mostram que a educação domiciliar é muita melhor que a educação estatal, ou até mesmo melhor que a educação privada — a educação clássica e cognitiva, a fim de criar pensadores autônomos é objetivo comum da educação domiciliar; por que pais iriam imbecializar seus filhos? Além disso, os tabus sobre a educação familiar, como o da socialização, são mesmo apenas tabus. Não há lógica alguma que imaginar que a educação domiciliar seja feita de forma com que a criança ou adolescente fique estudando em casa 24 horas por dia.

Para finalizar, Bernadin faz citações estarrecedoras do intento globalista:

Parece que a maior parte das recomendações insistem, desde há muito tempo, na necessidade de aplicar métodos pedagógicos ativos, de desenvolver o senso de responsabilidade entre os alunos, de lhes ensinar a autonomia, de diferenciar as abordagens. […] Na origem dessa reflexão de ordem pedagógica, decerto encontrar-se-á a clássica oposição entre instrução e educação, entre escola e família. Será preciso deixar à esfera privada da família o encargo e a responsabilidade de educar, apoiando-se para tal numa ética?  Agir de outro modo não seria romper com a neutralidade da escola, com sua função essencial de transmissão de conhecimentos  objetivos? Contudo, a escola não pode limitar- se a ensinar. De maneira implícita ou explícita, ela é portadora de valores e os transmite. Ela educa, portanto. Vale dizê-lo e afirmá-lo claramente. (Conselho da Europa) […] Os debates, as pesquisas e mesmo as hesitações dos responsáveis pela educação ou dos representantes dos professores mostram que, se a promoção da educação moral nos programas escolares parece cada vez mais necessária, a implementação de uma ação dessa natureza constitui para muitos países um problema ao mesmo tempo prioritário e ainda sem solução, tanto no tocante aos que concebem os planos de estudos quanto no tocante às condições do processo de formação dos professores; todo educador insuficientemente preparado para propor discussões de caráter ético ficará reticente, pela justa razão de tal empreendimento lhe parecer ao mesmo tempo importante, complicado e crivado de armadilhas. Seria, portanto, conveniente fazer a devida distinção entre hesitação e indiferença, ou entre o tempo necessário ao perfeito controle da modificação dos valores e um suposto eclipse da moralidade e da educação moral. […] Espantosa confissão na qual o autor reconhece que a decadência moral de nossos dias, que se poderia atribuir a uma “indiferença moral” ou a um “suposto eclipse da moralidade”, está, na realidade, relacionada ao “tempo necessário ao perfeito controle da modificação dos valores”, à revolução psicológica. Ou, ainda, que a ruína dos valores morais é tão somente uma consequência, escolhida deliberadamente e conscientemente assumida, de um projeto de subversão dos valores que não se pode realizar em prazo muito breve. Desse modo, a escalada da criminalidade, da insegurança, da delinquência, do consumo de drogas, a desestruturação psicológica dos indivíduos que se seguiu ao aviltamento moral e à consequente destruição do tecido social são as consequências de uma política consciente. Portanto, a manobra destinada a modificar os valores articula-se assim: inicialmente, impedir a transmissão, especialmente por meio da família, dos valores tradicionais; face ao caos ético e social daí resultantes, torna-se imperativo o retorno a uma educação ética – controlada pelos Estados e pelas organizações internacionais, e não mais pela família. Pode-se, então, induzir e controlar a modificação dos valores. Esquema revolucionário clássico: tese, antítese e síntese, que explica a razão por que, chegada a hora, os revolucionários se fazem os defensores da ordem moral. E por que, nolens, volens, os partidários de uma ordem moral institucionalizada se encontram frequentemente lado a lado com os revolucionários. (pag. 64-66)

A revolução cultural e o interculturalismo: homenagem a gramsci (pag. 67-71)

Talvez você já tenha ouvido o termo “guerra cultural”, é muito importante entende-lo para compreender o porquê de a cultura ocidental estar tão decadente. Como em qualquer outra guerra, usa-se as mais diversas estratégias e táticas sujas para vencer e, no contexto da manipulação psicológica, a guerra cultural tem papel fundamental na subversão e eliminação da unidade e identidade nacional. Assim o interculturalismo é apenas uma faceta da guerra cultural; jogar uma cultura de domínio (árabe-mulçumana) sobre uma cultura pacífica (ocidental-cristã) é um dos melhores meios para destruir a civilização ocidental. Neste ponto, talvez você já saiba de que contexto me refiro: guerra cultura na Europa.

[…] Não se poderia reconhecer mais claramente que a educação multicultural visa a uma revolução psicológica, cujas consequências são dificilmente avaliáveis. Os meios empregados devem, portanto, estar à altura da aposta:

O intercultural afeta, assim, o conjunto da instituição educacional: o ensino pré-escolar, as línguas, a elaboração dos programas, os manuais e outras ferramentas pedagógicas, a administração, os exames, o controle e a avaliação, as atividades extraescolares, os laços entre a escola e a comunidade, os serviços de orientação e os serviços auxiliares, a preparação para a vida adulta, a formação inicial e contínua dos professores, a luta contra a xenofobia e o racismo. (Conselho da Europa)

A existência, na Suécia, de uma decisão governamental que obriga todos os professores a participar do desenvolvimento da educação intercultural é um fato capital, de vez que delimita um cenário e concretiza as aspirações à mudança. (Conselho da Europa) (pag. 70*)

Portanto, como nos mostra Bernadin, o interculturalismo é nada mais que outro elemento do globalismo.

Reescrever a história (pag. 73-75)

Para que a revolução psicológica tenha êxito, como explica Bernadin, é necessário que a história seja reescrita. O pacificismo, o desarmamentismo, a fraternidade entre os povos e o multiculturalismo não poderiam desenvolver-se com o ensino de história atual. Faz necessário alterar fatos e contextos históricos para gerar caos social — dificultar a compreensão política e impossibilitar o entendimento da realidade. Mentir sobre a realidade dos fatos é essencial para a consolidação do plano globalista. O comunismo precisa se tornar um sistema social de fraternidade e igualdade — encobrir mais de 100 milhões de mortes provocadas pelo comunismo no século XX é a primeira coisa a se fazer para que isso aconteça. Com efeito, não posso deixar de citar uma icônica passagem do livro 1984 de George Orwell: “Quem controla o passado, controla o futuro. Quem controla o presente, controla o passado.” A frase de Orwell não poderia ser mais precisa, aliás, talvez tenha sido inspirada na desinformação soviética (grande intento soviético para desestabilizar o ocidente). Quanto mais atribuições são delegadas aos Estados nos dias de hoje, mais poderes sobre a população os governantes têm, — Estados nunca tiveram tanto poder de controle quanto têm hoje; o que era o poder de um rei absoluto na Idade Média, que não conseguia fazer valer suas ordens por todo o território de seu reino, comparado ao poder do presidente dos Estados Unidos da América hoje, que, a qualquer momento, pode catapultar a humanidade de volta para a idade do bronze (guerra nuclear)?

No que concerne às medidas a tomar, foram feitas as seguintes proposições:

– Elaboração de um manual de história geral da Europa, bem como um manual de história universal, com a ativa participação de comitês de historiadores dos países interessados. (Unesco, 4a Conferência dos Ministros da Educação)

Não obstante, convém não subestimar a necessidade de um aperfeiçoamento no ensino da História, da Geografia, da Literatura e de outras disciplinas culturais que favorecem o despertar do interesse e a melhor compreensão de outras comunidades, a fim de impregnar tal interesse de um espírito de objetividade científica e de tolerância, eliminando tudo o que possa haver de desconfiança e de desprezo relativamente a outros povos. Sabe-se que a natureza mesma da história da região não facilita a consecução de um objetivo assim. A simples apresentação objetiva dos fatos, sendo, de resto, insuficiente para produzir a atitude desejada, deve além disso ser realizada dentro de um verdadeiro espírito de tolerância, de modo a fazer compreender que os adversários de ontem são os parceiros de hoje, e que sua colaboração em uma obra comum só pode beneficiar a todos. Na medida em que se possa criar uma tal atmosfera, os temas relativos à paz, ao desarmamento, à cooperação e aos direitos humanos se impõem como uma obrigação. (Unesco, 4ª Conferência dos Ministros da Educação) (pag. 73-74*)

A avaliação e a informatização do sistema educacional mundial (pag. 97-114)

Como o leitor já deve ter percebido, a queda na qualidade do ensino é proposital — a educação não mais visa conferir autonomia de pensamento e desenvolver a inteligência, mas imbecializar a sociedade. Por consequência, o método de avaliação também mudou; trata-se de avaliar os componentes da personalidade, ou seja, avaliar o aprendizado da vida social e não mais avaliar as capacidades cognitivas dos indivíduos. Vale destacar que os EUA são o país mais avançado quando se trata de reforma psicopedagógica:

  • Exporemos inicialmente a situação do sistema educacional norte-americano, que está, no que concerne a essa reforma, alguns anos à nossa frente. Trata-se, convém insistir, de fatos provados, bem estabelecidos, e não de projetos:
  • Um número crescente, e já significativo, de alunos do primário são submetidos a testes psicológicos destinados a determinar tanto seus perfis psicológicos como suas disposições psicológicas.
  • Esses testes permitem, da mesma forma, determinar a disposição dos pais, refletidas por aquelas percebidas nas crianças. Permitem também, mediante a comparação entre o início e o fim do ano escolar, avaliar a influência dos professores.
  • Conforme os resultados que apresentem em tais testes, os alunos são assim submetidos a “cursos” especiais, baseados em livros e filmes concebidos por psicólogos e destinados a modificar seu comportamento de acordo com as técnicas elaboradas pelos behavioristas. O behaviorismo é uma escola de Psicologia que concebe o homem como um tipo de máquina, à qual basta introduzir os inputs corretos – em particular a educação – para obter os “corretos” outputs. Tais cursos especiais não são senão manipulação psicológica, de resto nociva, destinada a “desencorajar a transmissão de certas atitudes aprendidas com os pais”.130 Trata-se, portanto, de utilizar “a educação como instrumento para condicionar a vontade do povo”.131
  • Mencionemos de passagem que, segundo as teorias behavioristas, o nível escolar desejado deve ser o da “competência mínima”. Isso se traduz, de fato, numa baixa catastrófica do nível escolar: após essas reformas, o número de iletrados norte-americanos passou de 18 a 25 milhões em poucos anos. Desde então, o governo não mais forneceu estatísticas…
  • Os resultados dos testes psicológicos estão alocados numa única base de dados informatizada que concentra todas as informações referentes aos Estados Unidos.
  • Os organismos norte-americanos envolvidos tencionam ligar essa base de dados a outras similares existentes no mundo. As organizações internacionais não opõem, naturalmente, qualquer obstáculo a isso.
  • Tudo isso foi feito sem que o povo norte-americano fosse informado e só foi descoberto de modo fortuito. (pag. 98-99*)

[…] Segundo o glossário fornecido pelo Documento de referência da Conferência mundial sobre a educação para todos, “educação básica se refere à educação cujo objetivo é suprir as necessidades educacionais básicas”. Por outro lado, de acordo com o mesmo glossário, “Necessidades educacionais básicas referem-se aos conhecimentos, competências, atitudes e valores necessários à sobrevivência das pessoas, à melhoria de sua qualidade de vida e à continuidade de seu aprendizado”. (pag. 103*)

Deixo as conclusões para o leitor.

Conclusão

O livro Maquiavel Pedagogo é fundamental para entendermos melhor a realidade do mundo no âmbito da educação. Não há achismos aqui. O mundo está passando por uma de suas épocas mais obscuras. O controle social não mais é feito pela violência e opressão, sendo visível a todos; o controle social é indireto e até mesmo invisível, poucas pessoas o percebem, aliás, para a maioria, controle social por meio de técnicas de manipulação psicológica é teoria da conspiração, em suma, “eles” conseguiram. As pessoas pensam que estão no controle. Agora cabe a nós o estudo — estudar é o único caminho para entender o mundo, é o único caminho para ajudar nossos semelhantes a enxergarem o “invisível”. “E conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará.” (João 8:32)